O filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser era fiel à sua máquina de escrever manual. Recusava escrever nas máquinas elétricas e, mais tarde, no computador -embora filosofasse sobre ele.
Ele preferia a velha máquina pela combinação do silêncio entre cada tecla que pressionava e o ato físico de retornar o carro, pontuando os pensamentos para melhor compor o texto. A resistência das teclas aumentava a sua responsabilidade sobre o que escrevia.
O gesto de escrever na máquina manual é transparente: observa-se como a tecla pressionada levanta a alavanca que imprime a letra escolhida sobre a folha de papel; observa-se como o rolo gira para permitir a impressão da linha seguinte.
O computador, porém, as teclas detonam centenas de processos matemáticos para fazer surgir na tela uma simples letra. Não “vemos” esses processos, que formam para nós uma caixa-preta. Tornamo-nos funcionários das máquinas, isto é, passamos a funcionar para elas, e não o contrário.
A máquina de escrever é um dos objetos preferenciais de reflexão do livro “O Mundo Codificado”, que a editora Cosacnaify acaba de lançar em bela edição high-tech, com capa em PVC e impressão em serigrafia transparente. As páginas, pautadas como um caderno escolar, aludem às idéias que nelas se debatem.
O livro reaproxima os campos da arte e da técnica por meio de uma filosofia do design moderno: ainda que sobrecarregado da ideologia do progresso, o design abre espaço para invenção e ironia. Este espaço, todavia, é traiçoeiro: ao mesmo tempo que o design libera-nos de nossa condição criando mundos bonitos, esconde-nos valor e verdade.
Dividido nas seções “Coisas”, “Códigos” e “Construções”, o livro de Flusser é uma excelente amostra do pensamento desse que o organizador Rafael Cardoso apresenta como um dos maiores pensadores do século 20.
Traduzidos do alemão por Raquel Abi-Sâmara, seus textos aparentemente leves, mas densos e profundamente irônicos, nos convencem “de que toda cultura é uma trapaça, de que somos trapaceiros trapaceados, e de que todo envolvimento com a cultura é uma espécie de auto-engano” (pág. 185).
Rebanhos e pastores
Eles mostram como o processo de mímese que constrói a nossa cultura supõe uma reação imprevista das coisas: se desde que inventamos a alavanca movemos o braço como se fossem alavancas, também “desde que criamos ovelhas nos comportamos como rebanhos e necessitamos de pastores”.
Assim como pensa a técnica pela arte, Flusser combina filosofia e ficção numa espécie de ficção filosófica que nos força a pensar as coisas sob novas perspectivas, desalienando-nos dos automatismos cotidianos.
Sua filosofia irônica é uma filosofia da liberdade, mas uma liberdade trágica que nos reconhece animais políticos por sermos ao mesmo tempo solitários e incapazes de viver na solidão: “A comunicação humana é um artifício cuja intenção é nos fazer esquecer a brutal falta de sentido de uma vida condenada à morte”.
Autor: Gustavo Bernardo
Fonte: Folha de S.Paulo - Ilustrada
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